Não é novidade para ninguém que hoje a maioria dos clubes hoje tem nas verbas de transmissão de TV sua maior fonte de receitas, e que quase todos eles recorrem a antecipações e empréstimos usando os valores futuros destas verbas para estabilizar seu fluxo de caixa. Até aí, nada de novo. Muitas empresas utilizam esta prática em determinados momentos, e até mesmos as pessoas físicas o fazem em caso de necessidade. Porém, o que deveria ser utilizado como exceção tornou-se rotina no Botafogo.

Desde 2015, quando teve inicio a gestão de Carlos Eduardo Pereira, cujo lema era “amadores com orgulho”, a falta de network, de expertise comercial e de profissionais capacitados fez com que este recurso se tornasse a tábua de salvação das finanças do Botafogo (R$ 100 milhões foram antecipados por CEP apenas nos anos de 2015 e 2016). Chegou-se ao ponto das previsões orçamentárias anuais serem elaboradas com valores de receitas sabidamente não factíveis, incompatíveis com o histórico recente do Botafogo, apenas para que se possa desta maneira aumentar os limites de antecipação de receitas. Por exemplo, para 2019 foi projetada receita total de mais de R$ 250 milhões, sendo R$ 72 milhões em vendas de atletas e R$ 37 milhões com venda de placas publicitárias.

Antecipar valores de contratos já existentes – e que são negociados de forma coletiva pelos clubes – é imensamente mais simples para esta diretoria. A geração de novas receitas requer capacitação para captação de clientes (patrocinadores), elaboração e apresentação de planos de negócio ou qualquer outra ferramenta de mercado, isto é, coisas que o Botafogo hoje não dispõe (por opção da diretoria) de pessoal para realizar.

Na contramão do que parece lógico neste caso, que seriam a implementação (e permanente melhoria) dos processos administrativos e financeiros e a contratação de profissionais capacitados, a atual diretoria nomeia aliados políticos para cargos de chefia em setores vitais do clube, tais como financeiro, marketing e comercial, sem se importar se esse aliados possuem experiência na área.

Em resumo, sem condições de negociar novos contratos, gerar novas receitas e elaborar estratégias para atração e engajamento de torcedores, ficamos cada dia mais dependentes das cotas de TV e, consequentemente, com baixo poder de negociação na hora de discutir novos contratos com a Rede Globo. Hoje o Botafogo é visto pela emissora como um produto secundário, uma vez que passa a imagem de um clube maltratado por sua própria diretoria e com uma torcida que, apesar de apaixonada, a cada dia se desinteressa mais (com toda razão) pelos jogos do time.

Carlos Eduardo Godinho